Como investir com um robô pode mexer com o seu bolso...



Em tempos de crise, qualquer trocado pode ser uma fortuna. Educação financeira ainda é uma prática pouco comum no paraíso das poupanças e das dívidas, mas se surgisse uma ferramenta que pudesse de gerir o seu dinheiro com ganhos maiores e mais facilidade? Com ajuda da tecnologia, há quem garanta essa promessa: os robôs de investimento. Seja para quem tem muita grana ou para quem tem pouca.



"O investidor é muito impactado pelas emoções. Principalmente o investidor não profissional. Ele está investindo o dinheiro que juntou, ele está ralando e investindo o que ganhou ali. Você não quer perder dinheiro, e o tempo todo você tem medo". Este modelo de operação coloca o pequeno investidor no mercado de gente grande.

O jogo do mercado é muito impactado pelas emoções dos jogadores, dizem os especialistas. Um dia você ganha e no outro pode perder. Por isso a tecnologia surge como uma ajudante na missão de fazer quem quer perder o medo e pensar em boas formas de investimento.


Autômato não tem estresse


"Um robô não lida com fatores emocionais, ele pode ser programado para esperar determinadas reações do mercado. Então para pessoas impulsivas, vale a pena essa ajuda", afirma Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e professora da B3 (a antiga Bovespa). "Só é preciso respeitar a decisão do robô. Na hora do vamos ver, a pessoa entra em desespero e tenta alterar a programação do robô"




Maior a aposta, maior o desastre

Confiar cegamente no robô pode ter seu preço. Em 2013, uma postagem no twitter da agência de notícias Associated Press (AP) foi capaz de abalar o mercado financeiro americano. Uma mensagem de 71 caracteres conseguiu causar um estrago em Wall Street e fez a Bolsa de Valores norte-americana despencar. O tweet dizia que havia acontecido uma explosão na Casa Branca e que o presidente Barack Obama estaria machucado. Bastaram poucos minutos para que a notícia fosse desmentida e a AP admitisse que havia sido hackeada. A agência recuperou sua conta e apagou a notícia, mas o impacto no mercado foi intenso. O índice Dow Jones industrial caiu 143 pontos, e o índice S&P 500 perdeu capital de de US$ 136,5 bilhões.


Em apenas seis minutos, o estrago foi feito e desfeito. Os grandes players do mercado voltaram a ganhar dinheiro rapidamente. Para especialistas, o fato mostra que o mercado norte-americano foi dominado por robôs responsáveis por investimentos. "Foi tão instantâneo que claramente foi robô. Foi muito rápido para alguém ler aquilo ali e tomar alguma ação", afirma Lana. Cerca de 70% das operações americanas hoje são feitas por meio dos chamados robôs traders. No Brasil, as operações de alta frequência (feitas por algoritmos) representam cerca de 33% das operações da B3, a Bolsa de Valores brasileira. Assim como os bancos se digitalizaram, a bolsa brasileira também passou por um processo de informatização nos últimos 20 anos. O pregão com um monte de gente gritando e correndo para negociar ações ficou para trás.




Capta os sinais e o dinheiro


Para além da velocidade, a chave de ouro para quem quer ganhar dinheiro está no processamento de informações. "Os robôs percebem movimentos que um analista não consegue. Eles estão tentando ler notícias e captar sinais perigosos, como um escândalo com político, eles ganham a capacidade de ler notícias justamente para atuar no mercado de forma mais rápida".


Segundo especialistas, ainda não há robô que possa prever o futuro. Há, porém, aqueles que podem aprender com o passado. Neste contexto, dizem os especialistas, é difícil um robô prever o que acontecimento geopolítico pode fazer com os índices do mercado, mas poderia prever uma queda de ações da Vale levando em conta o que aconteceu em Brumadinho (MG), para citar um exemplo mais recente. "Não tem como um robô prever o futuro e a variação do mercado. Qualquer coisa pode fazer o mercado cair ou subir. O [Rodrigo] Maia falando que o [Jair] Bolsonaro tá de brincadeira é um motivo para cair o mercado", afirma Tito Gusmão, CEO da Warren, plataforma online de investimentos. "Ninguém, a não ser o Maia, pode saber o que vai dizer para influenciar o mercado. O que os robôs podem fazer, assim como boas estratégias de investimento, é preparar o portfólio de investimento para dias terríveis de chuva e dias de sol."



Meu robô, meu conselheiro


Para ajudar a bolar uma boa estratégia, a tecnologia também já está à disposição na forma dos robôs chamados advisors (orientador, em inglês). Por meio de uma análise de perfil do investidor e dos objetivos do cliente, o robô determina para onde deve ir cada fatia do dinheiro aplicado, dividindo-o entre opções de maior, médio e menor risco.


Este tipo de robô está mais acessível para quem tem pouco dinheiro para operar. A teoria base, chamada de Teoria Moderna do Portfólio, para esse tipo de robô data de muito antes da sequer existência dos computadores como os conhecemos hoje e foi vencedora de um Prêmio Nobel de Economia nos anos 1990. Basicamente, os advisors usam a tecnologia para aplicar a fórmula da teoria e dividir os ovos em diferentes cestas.





Autor: Reynner Mendes, Brasília

30/08/2020 - 11h23